Um corpo ferido

O corpo único da Terra está ferido. A espécie humana feriu gravemente os Sistemas da Vida. Precisamos mudar imediatamente nosso modo de viver, pois em todo o planeta são evidentes as consequências de nossa ignorância em relação aos limites que devemnos respeitar no trato com os recursos planetários. As tragédias naturais se multiplicam e sucedem em prazos cada vez mais curtos, confirmando os alertas de respeitáveis cientistas e as advertências das sabedorias ancestrais.

Nesse momento, é vital que reflitamos sobre como colocar em prática as mudanças emergenciais necessárias, e formas eficazes de desenvolver e manter ao longo do tempo essas ações.


Um prineiro passo é redespertar e nutrir a consciência das interconexões entre todas as formas de vida. É evidente a qualquer pessoa relativamente lúcida que a Terra é um organismo planetário, com influências recíprocas entre todos seus elementos constituintes, o tempo todo e a cada momento. Mesmo que não compreendamos em profundidade os mecanismos dessas interações, basta um mínimo de razoabilidade para perceber que é impossível a existência de “ilhas de imunidade” perante os efeitos dos desequilíbrios ambientais. Até porque o que nomeamos formalmente como ilhas são porções de terra separadas na aparência, mas unidas ao corpo do planeta em um nível mais profundo das águas… Em um prazo cada vez mais breve, as crises locais serão sentidas em todos os lugares, de alguma forma. De problemas inicialmente locais, o sistema global gradualmente começa sentir as dores que eram invisibilizadas pela visão dominante, regida basicamente pelo paradigma econômico, o qual propõe a precificaçâo de tudo, e ao faer isso nega o valor do que é de fato essencial.

Como as nossas infraestruturas na sua maioria não respeitam as leis naturais, tornam-se frágeis e desiguais, e por isso rápida e facilmente os impactos se espalham, e as crises contaminam todo o tecido social com efeitos devastadores. Nesse sentido, necessitamos desenvolver metodologias de aplicação individual e coletiva que sejam eficazes no sentido de nos manter minimamente saudáveis. Penso que um bom ponto de partida é manter a sensibilidade, não negar a dor decorrente da gravidade dos fatos que percebemos diretamente e através do volume avassalador de informações a que somos expostos nessa era das comunicações virtuais.

Ao par disso, como fator de equilíbrio, é necessário praticar a consciência do momento presente, ao aplicar os recursos que dispomos, onde estivermos, na medida de nossas possibilidades. Aqui, é muito importante respeitar nossa individualidade, e cultivar o senso de corresponsabilidade, sem permitir que o obstáculo patológico da culpa se interponha entre nossa motivação de agir e a ilusão de que não somos suficientes para fazer o que é necessário. Diante dos desafios inevitáveis que a existência nos apresenta, podemos ficar na imobilidade aoa optar pelos extremos, isto é, imaginar de que podemos resolver absolutamente tudo ou de que carecemos de recursos mínimos para fazer coisa alguma. Uma vez mais, a Natureza é mestra: a diversidade é manifestação de riqueza, e flexibilidade é poder. Já dispomos dos conhecimentos, tecnologia e recursos de toda ordem que podem dar conta das crises que enfrentamos, mas ainda carecemos do aprendizado da colaboração genuína, onde ninguém é mais importante, exceto na capacidade eventual e provisória de servir em um aspecto específico, que certamente estará em relação de cooperação com outros fatores que sustentam suas ações.

De modo mais prático, o núcleo de nossas ações deveria estar na aceitação da realidade, atitude essencial para ativar o potencial de transformação possível. Enquanto negarmos aspectos dos nossos desafios, nos faltarão elementos para agir com eficácia. Somente quando aceitamos que algo é possível podemos fazer algo a respeito, e assim inicia-se de fato o processo que pode nos levar a acolher os resultados sem a eles nos apegarmos. A aceitação é algo poderoso, se utilizamos o bom senso de abordar os desafios em uma atitude de moderação. De fato, é mais fácil praticar a resignação do que agir com moderação.

Neste momento de crise sistêmica, sinto que é mais adequado cultivar um realismo positivo e pragmático do que formas de otimismo ou pessimismo. Na condição inescapável de agentes em um processo histórico de transformação planetária, será decisivo desenvolvermos maturidade emocional e equilíbrio relacional, como um caminho hábil para agirmos na condição de sujeitos e não de vítimas em um processo no qual estamos envolvidos diretamente com as causas que nos trouxeram até aqui.

Não há um caminho único. A rigor, necessitaremos de formas individuais de ação transformadora, articuladas em uma visão coletiva em que a bem-estar e o respeito à Vida estejam acima das vontades ou benefícios pessoais.

Vamos precisar de disciplina, perseverança e serenidade. Aspiro que consigamos ir além de nossas divergências, abrindo mão de ter razão em prol da sobrevivência e de um futuro viável para nossa espécie humana.

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