Ritmo

Aprender é uma capacidade humana notável. Penso que um diferencial de nossa espécie é a possibilidade de utilizar o pensamento discriminativo como uma ferramenta muito hábil no trato com a realidade. Nessa ação, o entendimento refina-se e cada pessoa, a seu modo e tempo, constrói um sistema individual de interpretação do que percebe. Esse processo de construção de um referencial interpretativo pode limitar progressivamente a possibilidade de entendimento de outras visões.

Usualmente o resultado manifesta-se na forma de distanciamento ou até de discriminação em relação às divergências. Atualmente, penso que uma visão que gera enorme limitação na relação com a realidade e com as crises sistêmicas que vivenciamos é a monocultura do paradigma econômico. Desde a base do processo educacional, o referencial utilizado é o quantitativo. Nos acostumamos a ver os fatos somente com um olhar que desconsidera as particularidades, que supervaloriza o que é massivo, grandioso. Nessa abordagem, uma das partes mais significativas da vida é deixada de lado.

Tomemos apenas a questão do ritmo: há que ir mais longe e mais rápido, a qualquer preço. O que fica fora das análises é para onde se está indo, qual o rumo que nossas vidas tomam, em termos qualitativos.

Em termos individuais, é fácil observar a enorme crise de sentido que muitas pessoas experienciam. Mesmo atingidas as metas propostas – ou impostas – como símbolo de sucesso, nos raros momentos de lucidez a desilusão é inevitável, e superficialmente encoberta através de um ciclo infindável de troca dos símbolos. Independente de posição ou papel na sociedade, todas as pessoas estão sujeitas aos fatores inescapáveis de tempo e espaço que caracterizam nossa existência. O tempo passa, nossos corpos cumprem seus ciclos vitais, as circunstâncias variam constantemente e o controle que sobre elas temos é bastante limitado.

Sinto que uma boa forma de começar a questionar esses modelos limitados e limitantes da realidade é simplesmente desacelerar, diminuir o ritmo, em qualquer atividade. O que quer que vá fazer, reduza o ritmo.

Respire fundo, exale lentamente. Ao caminhar, diminua o passo. Se quiser, deliberadamente faça movimentos com as mãos em câmera-lenta, com atenção redobrada ao que sente ao agir desse modo. Permita-se a experiência de dilatar a sensação da passagem do tempo através da diminuição do ritmo do que fizer.

Essa prática pode parecer trivial, mas traz resultados notáveis ao longo do tempo, ao permitir uma nova relação com a realidade objetiva. Com o tempo, esse novo referencial poderá ser estendido a outros aspectos do cotidiano. Sem expectativas, um resultado possível será uma capacidade de apreciação muito mais refinada da singularidade de cada momento. Como efeito adicional, ressurge a capacidade de gerar e encontrar contentamento em cada momento de nosso dia. Como tudo que é simples, requer aceitação de que é possível, sem crenças prévias. E, acima de tudo, prática constante. Uma gota de água limpa em um copo cheio de café tornará o seu conteúdo translúcido, mas demandará alguns dias para que isso ocorra. O mais importante é começar, sem pressa e com constância. O momento é agora. Respire fundo.

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