Estações

Já estamos em uma nova estação do ano. A depender do hemisfério em que você se encontra, o outono ou a primavera chegam com suas cores, temperaturas e ritmos próprios.

Percebo que a própria palavra “estação” revela uma intenção humana de compartimentar o que é, por natureza, fluido. É impossível fixar em termos absolutos os limites de processos naturais. Escolhemos referenciais e definimos convenções coletivas de que há um início e um fim para aquilo que, na verdade, ocorre de modo contínuo. A natureza não conhece fronteiras rígidas, ela realiza transições.

Essas transições não são vazias. Nos limites entre uma estação e outra que algo importante acontece: o organismo se reorganiza, a paisagem se redesenha, o equilíbrio se refaz sob novas condições. A mudança não é ruptura, é continuidade com outra forma.

Vale acolher essa mesma lógica em nossas existências. No plano corporal, as transições nos oferecem a oportunidade de respeitar nossa constituição individual enquanto otimizamos nossa condição num momento específico. É nesse espaço — entre o que éramos e o que podemos ser — que surgem os movimentos mais elegantes e eficientes. Sem forçar, mas num fluxo a partir de uma base honesta e consciente.

Assim como a natureza não dá saltos de uma estação para outra, nosso corpo não passa de um esforço rude para o refinamento técnico sem passar por etapas intermediárias. Cada fase tem seu caráter, suas exigências e seus resultados. Querer queimar etapas é, na prática, desrespeitar o processo, e no processo é justamente onde tudo acontece.

A sugestão que ofereço é simples, mas precisa de zelo para ser sustentada.

Comece por uma motivação genuinamente pessoa, que não depende de aprovação externa para existir e que permanece viva mesmo quando ninguém está olhando. Essa motivação é o solo no qual a prática se enraíza.

Em seguida, siga com passos viáveis, que permitem constância e valem mais do que a intensidade. Uma prática diária e modesta constrói mais do que um esforço eventual e grandioso.

Observe sua condição atual de forma relaxada e lúcida, sem a postura de julgamento inflexível nem o comodismo da complacência. Ver com clareza o que é, sem dramatizar nem idealizar, é o primeiro gesto de respeito em qualquer prática corporal.

Mantenha os movimentos num estado de presença. A respiração consciente é, nesse sentido, muito mais do que uma técnica, é uma metodologia de contato com o próprio ato. Quando a respiração serve de referência, a mente pode se liberar da fixação em resultados futuros. E é exatamente dessa forma que os resultados se manifestam: não como conquistas forçadas, mas como consequências naturais de um processo bem conduzido.

Lembre-se de que, seja qual for a estação, haverá variações no clima. Alguns dias mais agradáveis, outros nem tanto. Fases de expansão e fases de consolidação. Tudo isso é parte de um mesmo ciclo, no qual nenhum momento será desperdiçado se houver constância, disciplina e a sabedoria de aceitar o ritmo natural. Outras estações virão. E você estará diferente nela.

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